O POVO - 02/03/2014
Qual Carnaval faz
sua cabeça?
O POVO faz um
resgate histórico da invencionice de se fantasiar. Antes da quaresma, a rua
convida os foliões a um sedutor jogo de esconde e revel.
Foto: Chico Gomes
Quem é você neste
Carnaval? Cabe aqui qualquer resposta. Estamos nos dias que antecedem a
quaresma e por tradição histórica é época de se deleitar com os prazeres da
carne. É Carnaval no Brasil e para incentivar a exaltação da festa mais
esperada do ano, você pode, ou deve, se fantasiar. Sair às ruas, que
tentadoramente convocam a todos sem critérios de classificação social ou racial,
e experimentar a festa que rompe com o cotidiano. Se você ainda está com uma
resposta comportada, pronta para a primeira pergunta, desconstrua-se. Hoje é
permitido. Aliás, desde o século XIX. “As principais fantasias dos velhos
carnavais brasileiros são as de Pierrot, Arlequim e Colombina, originárias de
um estilo teatral conhecido como commedia dell’arte, que surgiu na Itália do
século XVI”, explica Luiza Rios, doutoranda em História pela UFPE. Desde os
primeiros Carnavais cearenses a molecagem e a vontade de se reinventar
encontrou refúgio nos papangus. “Eram foliões que se vestiamde camisolões ou
dominós e usavam máscaras na tentativa de esconderem a identidade para
aproveitarem com mais liberdade as festas”, diz Luiza.
É comum encontrar
nas descrições da festa momina que a graça da máscara foi a de inverter os
papéis. É quando saíam às ruas escravizados vestidos de senhores e ricos
vestidos de pobres. Desde o teatro grego foi assim, quando mulheres eram
proibidas de atuar e os homens usavam máscaras para interpretar personagens
femininos. O carnavalesco cearense Dilson Pinheiro, desde 1978 arrasta sandália
em carnavais, conta que a mais legítima fantasia é a mais engraçada. “A
fantasia fácil, que você encontra em todo canto é o homem fantasiado de mulher.
Todo mundo tem algo em casa que pode virar essa fantasia. É caricata e o homem
fica ridículo e bizarro”. A essência do principal jogo de Carnaval é universal.
“As máscaras e fantasias marcavam a fuga do cotidiano. As transgressões eram
toleradas e as distancias sociais diminuíam”, explica Luiza.
A fantasia é em si
o figurino, como que um traje necessário – para não dizer obrigatório - do
Carnaval. O diretor do bloco Unidos da Cachorra incentiva os foliões já no Pré-Carnaval
a se enfeitar. “Convidamos o público a colorir a Praia de Iracema. A fantasia é
a alegria da festa, uma maneira de ocupar o espaço público”. Dilson ensina: “A
roupa é a extensão de sua alegria. Se você está triste, não vai nem pro Carnaval.
E se colocar uma roupa colorida, mostra que está compactuando com aquela festa”.
Assim, as
diferentes personas sociais assumem identidades múltiplas, outrora escondidas. “Atualmente
o desejo de trajar uma fantasia carnavalesca é misto de exibicionismo e
tentativa de libertação”, analisa Luiza. E assim segue a folia, numa cadência
de esconder-se atrás das máscaras e revelar-se a si mesmo.
1 A ELITE
“A elite
fortalezense desfilava fantasias luxuosas nos clubes como o Iracema e o
Cearense. A maioria encomendava essas fantasias nas casas especializadas em
produtos importados”, ensina Luiza Rios.
2 A MODA
Hoje a elite
recorre a grifes para construir sereias, baianas e índias. A rua mesmo, enche-se
de havaianas e melindrosas. Frida Kahlo está na moda e as coroas de flores na
cabeça devem ser o traje recorrente de quem ouve Lana Del Rey e samba ao som de
Novos Baianos.
3 A OUSADIA
As coca-colas usavam
fantasias bem ousadas. A maioria desfilava com saias curtas e blusas decotadas.
Por esse motivo eram alvos fáceis do olhar moralizador da Igreja e das famílias
mais conservadoras.

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