domingo, 6 de abril de 2014

O POVO - 02/03/2014

Qual Carnaval faz sua cabeça?

O POVO faz um resgate histórico da invencionice de se fantasiar. Antes da quaresma, a rua convida os foliões a um sedutor jogo de esconde e revel.

Foto: Chico Gomes

Quem é você neste Carnaval? Cabe aqui qualquer resposta. Estamos nos dias que antecedem a quaresma e por tradição histórica é época de se deleitar com os prazeres da carne. É Carnaval no Brasil e para incentivar a exaltação da festa mais esperada do ano, você pode, ou deve, se fantasiar. Sair às ruas, que tentadoramente convocam a todos sem critérios de classificação social ou racial, e experimentar a festa que rompe com o cotidiano. Se você ainda está com uma resposta comportada, pronta para a primeira pergunta, desconstrua-se. Hoje é permitido. Aliás, desde o século XIX. “As principais fantasias dos velhos carnavais brasileiros são as de Pierrot, Arlequim e Colombina, originárias de um estilo teatral conhecido como commedia dell’arte, que surgiu na Itália do século XVI”, explica Luiza Rios, doutoranda em História pela UFPE. Desde os primeiros Carnavais cearenses a molecagem e a vontade de se reinventar encontrou refúgio nos papangus. “Eram foliões que se vestiamde camisolões ou dominós e usavam máscaras na tentativa de esconderem a identidade para aproveitarem com mais liberdade as festas”, diz Luiza.


É comum encontrar nas descrições da festa momina que a graça da máscara foi a de inverter os papéis. É quando saíam às ruas escravizados vestidos de senhores e ricos vestidos de pobres. Desde o teatro grego foi assim, quando mulheres eram proibidas de atuar e os homens usavam máscaras para interpretar personagens femininos. O carnavalesco cearense Dilson Pinheiro, desde 1978 arrasta sandália em carnavais, conta que a mais legítima fantasia é a mais engraçada. “A fantasia fácil, que você encontra em todo canto é o homem fantasiado de mulher. Todo mundo tem algo em casa que pode virar essa fantasia. É caricata e o homem fica ridículo e bizarro”. A essência do principal jogo de Carnaval é universal. “As máscaras e fantasias marcavam a fuga do cotidiano. As transgressões eram toleradas e as distancias sociais diminuíam”, explica Luiza.


A fantasia é em si o figurino, como que um traje necessário – para não dizer obrigatório - do Carnaval. O diretor do bloco Unidos da Cachorra incentiva os foliões já no Pré-Carnaval a se enfeitar. “Convidamos o público a colorir a Praia de Iracema. A fantasia é a alegria da festa, uma maneira de ocupar o espaço público”. Dilson ensina: “A roupa é a extensão de sua alegria. Se você está triste, não vai nem pro Carnaval. E se colocar uma roupa colorida, mostra que está compactuando com aquela festa”.


Assim, as diferentes personas sociais assumem identidades múltiplas, outrora escondidas. “Atualmente o desejo de trajar uma fantasia carnavalesca é misto de exibicionismo e tentativa de libertação”, analisa Luiza. E assim segue a folia, numa cadência de esconder-se atrás das máscaras e revelar-se a si mesmo.



1 A ELITE

“A elite fortalezense desfilava fantasias luxuosas nos clubes como o Iracema e o Cearense. A maioria encomendava essas fantasias nas casas especializadas em produtos importados”, ensina Luiza Rios.


2 A MODA

Hoje a elite recorre a grifes para construir sereias, baianas e índias. A rua mesmo, enche-se de havaianas e melindrosas. Frida Kahlo está na moda e as coroas de flores na cabeça devem ser o traje recorrente de quem ouve Lana Del Rey e samba ao som de Novos Baianos.


3 A OUSADIA


As coca-colas usavam fantasias bem ousadas. A maioria desfilava com saias curtas e blusas decotadas. Por esse motivo eram alvos fáceis do olhar moralizador da Igreja e das famílias mais conservadoras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário