O POVO - 01/12/2012
Volteios da história
Uma confusão de
datas ronda a história do Conservatório Alberto Nepomuceno, referência no
ensino de música no Estado do Ceará. Pesquisadora defende que a instituição
teria sido fundada quase duas décadas antes da data oficial.
Foto do dia da Inauguração em 1919.
Foto atual do Conservatório
Antes mesmo de
adentrarmos o prédio, uma grande placa branca com dizeres em azul deixa claro
ao passante: “Tradição e modernidade no ensino da música. Fundado em 1938”. Acomodado
em meio ao caos visual e sonoro formado por edificações, veículos e pessoas que
transitam ao longo da Avenida da Universidade, parte do “corredor cultural” do
Benfica, o Conservatório de Música Alberto Nepomuceno é uma das principais
referências no ensino de música no Estado do Ceará.
Reverenciando a
memória de um dos nomes mais importantes da música brasileira - cearense de
nascença, mas internacional de andanças -, a instituição oferece cursos de
canto, piano, violão, violino, bateria, entre outros instrumentos, para
públicos das mais diferentes idades e graus de iniciação.
No entanto, apesar
da “informação pública” que dá conta de sua fundação em 26 de maio de 1938 –
normalmente creditada aos esforços de Paurillo Barroso por meio da Sociedade de
Cultura Artística -, a história do Conservatório Alberto Nepomuceno guarda
“raízes” que podem vir bem antes do que é usualmente conhecido pela maioria dos
cearenses. Com um detalhe a se destacar: a diferença entre datas soma quase
duas décadas. É o que afirma a historiadora Luiza Rios, que aponta o ano de 1919
como marco de “origem” do CMAN enquanto projeto. O nome do espaço, no entanto, era
outro naquela época - apesar de notavelmente semelhante ao atual.
Pesquisa
A afirmação da
historiadora é fruto de sua dissertação defendida recentemente no Mestrado
Acadêmico em História e Culturas da Uece intitulada Entre o Piano e o Violão: A
Modinha e a Cultura Popular em Fortaleza, trabalho com o qual realiza uma
análise social da música cearense no fim do século XIX e início do século XX, entre
1888 e 1920. Durante a pesquisa, ao investigar os “lugares da música” no Ceará,
Luiza se deparou com documentos que registravam a presença de uma “Escola de
Música Alberto Nepomuceno”, fundada pelo maestro cearense Henrique Jorge em 1919.
A partir dali os pontos foram sendo ligados.
“Na ocasião pensei:
não pode ser o mesmo estabelecimento. Mas ambos tiveram em comum até o espaço
no início, na rua Barão do Rio Branco, 520. Analisando um jornal de 1919 [Correio
do Ceará], vi que estava sendo aberto essa escola na rua. Em outro jornal [O
POVO], de 1938, vi que estava sendo reaberto um conservatório no mesmo prédio”,
afirmou a historiadora. “Assim como o Alberto Nepomuceno, o Henrique Jorge
estudou em Recife e viveu todo aquele universo musical enriquecido. Ele
inclusive fundou seu primeiro conservatório por lá. Com a experiência - e de
volta a Fortaleza -, ele resolveu fundar algo do gênero por aqui. Vendo no
Alberto Nepomuceno a figura principal do movimento nacionalista para a música, veio
a homenagem”, completou.
Mas como viria a
ligação entre os dois projetos de ensino? “Em 1928, o Henrique Jorge
desapareceu e foi dado como morto. A escola começou a decair. Quando o
compositor de renome Paurillo Barroso viu como estava a situação do ensino de
música por aqui, tomou a frente e decidiu reinaugurar o espaço dez anos depois,
colocando três grandes pianistas na direção: Ester Salgado da Fonseca, Branca
Rangel e Nadir Parente”, afirma Luiza Rios.
“Acredito que essa
‘confusão de datas’ tenha acontecido pelo fato de Henrique Jorge só ser
reconhecido como sujeito histórico a partir do momento em que seu filho, Paulo
Sarasate, foi governador do Estado (1955-1958). O conjunto habitacional que
levou o seu nome foi inaugurado também nessa década, quando o filho já havia
entrado na vida política. Paurilo Barroso reinaugurou o conservatório em 1938 e
nesse período ele já era um grande nome na música erudita cearense. Foi autor
da obra A valsa proibida, que ficou conhecida em todo o Brasil”, afirmou a
pesquisadora.
Cronologia
Procurada pela
reportagem, a diretora do CMAN, Mirian Carlos, afirmou saber da história que
envolve a Escola criada por Henrique Jorge, apesar de não ser “amplamente
conhecida”. “A cronologia adotada, no entanto, vem a partir da fundação do
Conservatório em si, em 1938, a partir do projeto de reestruturação idealizado
pelo Paurillo e orientado pelas três diretoras”, afirmou por telefone.
Já no caso da
professora titular aposentada do curso de música da UECE, ex-aluna e ex-professora
do Conservatório (1961), Elba Braga Ramalho, a informação apresentada pela
dissertação foi completa novidade. “Essa provocação é interessante. Para mim
foi surpresa, já que sempre tive contato com a história de 1938”, afirmou.
No entanto, Elba
fez ressalvas à ideia de uma “continuidade” entre os dois projetos, ao ser
perguntada sobre o que diferenciaria uma “escola” de um “conservatório” na
teoria. “A própria pergunta pode ajudar a elucidar esse ponto. O conservatório
vem de uma tradição europeia, principalmente francesa [conservatoire]. O
Henrique Jorge criou a Escola, deu o nome do Alberto Nepomuceno, mas isso não
exatamente quer dizer que os projetos sejam os mesmos. As professoras Ester
Salgado e Nadir Parente, por exemplo, formaram-se musicistas a partir do modelo
de conservatório europeu e trouxeram essa ideia de escola para cá. Perceba que
isso é uma análise de improviso, mas a informação aponta para dois projetos
distintos”, completou a professora, que conheceu a pesquisa em uma mesa redonda,
a convite do curso de Música da UECE.
Saiba mais
“Aos quinze dias do
mês de julho de 1919 às 19h30 no Edifício do Clube Iracema, à Rua Barão do Rio
Branco, 520, presentes o Exmo. Sr. Dr. Thomé de Saboia digníssimo presidente do
Estado, o Exmo. Sr. D. Manoel, Arcebispo Metropolitano de Fortaleza, autoridades
civis e militares representantes da imprensa, pessoas gradas e distintíssimas
famílias, à convite do maestro e diretor da Escola de Música Alberto Nepomuceno,
Henrique Jorge...”, dizia a ata do dia da inauguração da Escola, veiculada em 1958
pelo jornal O Unitário, em uma retrospectiva sobre o conservatório.

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