domingo, 6 de abril de 2014

O POVO - 21/01/214

Era uma vez a modinha...

Pesquisa mostra como a modinha, gênero musical que nasce junto com o processo de urbanização de Fortaleza, criou uma ponte entre ricos e pobres no século XIX.

Raimundo Ramos de Paula Filho (1871 – 1916) nunca gostou de ser chamado de Ramos “Cotoco”, apelido que lhe foi dado por causa de uma deficiência no braço direito. Apesar da insatisfação, a brincadeira tornou-se quase um sobrenome, e foi assim que ele ficou conhecido ao longo dos anos.



Artista plástico, compositor e boêmio incorrigível, Ramos “Cotoco” é um dos personagens mais importantes para se compreender uma Fortaleza de final do século XIX, ainda dando os primeiros passos para a urbanização. Bem humorado, Cotoco registrou os costumes de sua época em canções como “3%” e “Modernismo”. Como pintor, era mais sério. Assinou trabalhos importantes, como parte do interior do Theatro José de Alencar.

O jeito moleque e avant la lettre de Ramos Cotoco chamou a atenção da historiadora Ana Luiza Rios, que concluiu mestrado na Universidade Estadual do Ceará com a dissertação Entre o piano e a viola: a modinha e a cultura popular em Fortaleza (1988 – 1920). A pesquisa, que levou três anos, apresenta uma época em que a intelectualidade buscava entender a identidade nacional. Entre valsas, lundus e batuques, a modinha se destacou como um elemento agregador, que agradava diferentes classes sociais.


Segundo Ana Luiza, Ramos Cotoco fazia parte de um grupo de artistas que tirava elementos da rua para fazer sua música e poesia, o que era um contraponto ao modo mais formal de outros compositores, como Alberto Nepomuceno e Branca Rangel. “É interessante porque é o único gênero realmente democrático. Ele já com uma marca, por conta do Alberto Nepomuceno, de extrair o lundu do negro. É como se fosse um ritmo mestiço, que mistura a melodia do branco e o ritmo do negro. Ela já é a síntese do brasileiro”, explica a pesquisadora, acrescentando que a modinha nasce junto com o processo de urbanização de Fortaleza. “É o primeiro momento em que os compositores vão fazer coisas deles.”

O período compreendido na pesquisa de Ana Luiza Rios vai dos primeiros registros de modinhas fortalezenses (1888) até as últimas produções de Alberto Nepomuceno no gênero (1920). Nessa época, Fortaleza se transformava socialmente, com importantes obras urbanas, e culturalmente, com o surgimento da Padaria Espiritual (1892), do Instituto do Ceará (1887) e da Academia Cearense de Letras (1894).

Os artistas olhavam desconfiados para o que estava acontecendo e levavam suas ideias para a música. Ramos Cotoco, por exemplo, fez

“O bonde e as moças” para falar sobre a chegada desta novidade à cidade – “Conheço umas que moram aonde o bonde não passa, que dizem fazendo troça ‘esta rua é uma desgraça’”. “Ramos tinha um pé atrás com o processo, mas também não era totalmente contra”.



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Lá e cá

Ramos Cotoco era “um sujeito muito contraditório, que, ao mesmo tempo que critica os ricos, frequenta os lugares dos ricos”, conta Ana Luiza Rios, autora de dissertação sobre o poeta e músico cearense. O compositor acabou morrendo pobre, deixando como legado um livro (Cantares boêmios), suas pinturas e suas músicas.

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