O POVO - 21/01/214
Era
uma vez a modinha...
Pesquisa
mostra como a modinha, gênero musical que nasce junto com o processo de
urbanização de Fortaleza, criou uma ponte entre ricos e pobres no século XIX.
Raimundo Ramos de Paula Filho (1871 – 1916)
nunca gostou de ser chamado de Ramos “Cotoco”, apelido que lhe foi dado por
causa de uma deficiência no braço direito. Apesar da insatisfação, a
brincadeira tornou-se quase um sobrenome, e foi assim que ele ficou conhecido
ao longo dos anos.
Artista plástico, compositor e boêmio
incorrigível, Ramos “Cotoco” é um dos personagens mais importantes para se
compreender uma Fortaleza de final do século XIX, ainda dando os primeiros
passos para a urbanização. Bem humorado, Cotoco registrou os costumes de sua
época em canções como “3%” e “Modernismo”. Como pintor, era mais sério. Assinou
trabalhos importantes, como parte do interior do Theatro José de Alencar.
O jeito moleque e avant la lettre de
Ramos Cotoco chamou a atenção da historiadora Ana Luiza Rios, que concluiu
mestrado na Universidade Estadual do Ceará com a dissertação Entre o piano e a
viola: a modinha e a cultura popular em Fortaleza (1988 – 1920). A pesquisa, que
levou três anos, apresenta uma época em que a intelectualidade buscava entender
a identidade nacional. Entre valsas, lundus e batuques, a modinha se destacou
como um elemento agregador, que agradava diferentes classes sociais.
Segundo Ana Luiza, Ramos Cotoco fazia
parte de um grupo de artistas que tirava elementos da rua para fazer sua música
e poesia, o que era um contraponto ao modo mais formal de outros compositores, como
Alberto Nepomuceno e Branca Rangel. “É interessante porque é o único gênero
realmente democrático. Ele já com uma marca, por conta do Alberto Nepomuceno, de
extrair o lundu do negro. É como se fosse um ritmo mestiço, que mistura a
melodia do branco e o ritmo do negro. Ela já é a síntese do brasileiro”, explica
a pesquisadora, acrescentando que a modinha nasce junto com o processo de
urbanização de Fortaleza. “É o primeiro momento em que os compositores vão
fazer coisas deles.”
O
período compreendido na pesquisa de Ana Luiza Rios vai dos primeiros registros de
modinhas fortalezenses (1888) até as últimas produções de Alberto Nepomuceno no
gênero (1920). Nessa época, Fortaleza se transformava socialmente, com
importantes obras urbanas, e culturalmente, com o surgimento da Padaria
Espiritual (1892), do Instituto do Ceará (1887) e da Academia Cearense de
Letras (1894).
Os
artistas olhavam desconfiados para o que estava acontecendo e levavam suas
ideias para a música. Ramos Cotoco, por exemplo, fez
“O bonde
e as moças” para falar sobre a chegada desta novidade à cidade – “Conheço umas
que moram aonde o bonde não passa, que dizem fazendo troça ‘esta rua é uma
desgraça’”. “Ramos tinha um pé atrás com o processo, mas também não era
totalmente contra”.
Saiba
mais
Lá
e cá
Ramos
Cotoco era “um sujeito muito contraditório, que, ao mesmo tempo que critica os
ricos, frequenta os lugares dos ricos”, conta Ana Luiza Rios, autora de
dissertação sobre o poeta e músico cearense. O compositor acabou morrendo pobre,
deixando como legado um livro (Cantares boêmios), suas pinturas e suas músicas.


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