domingo, 6 de abril de 2014

O POVO - 21/01/2014

Um gênero boêmio e democrático

A pesquisadora Ana Luiza Rios defende o caráter democrático da modinha na Fortaleza do século XIX.




O surgimento de uma cena musical em Fortaleza ocorreu em paralelo ao processo de urbanização da cidade. A nova ordem que apareceu com a remodelação do espaço urbano, no fim do século XIX e início do XX, gerou maior distanciamento entre os diferentes extratos sociais. Enquanto as elites econômicas e intelectuais isolavam-se nas festas dos clubes e palacetes, os mais pobres faziam seus “batuques de viola” nas zonas periféricas.


Gêneros musicais provenientes da Europa (valsa, a polca, o schottisch e a quadrilha) eram os preferidos pela elite e a classe média de artistas, poetas e demais trabalhadores letrados. Já os maracatus, as congadas, o bumba-meu-boi e os fandangos davam o tom às diversões de negros, mestiços e migrantes da seca que habitavam as zonas sem calçamento e saneamento básico.


As batucadas nos finais de semana levavam o nome de sambas de areia ou forrobodós, por serem regadas a danças, bebidas e música. No entanto, essas festas eram, em grande parte, desmanchadas pelas autoridades policiais, com a justificativa de que causavam tumulto. O cronista Eduardo Campos aponta que, na falta de diversões, a população recorria também ao sereno, que era um ajuntamento popular em frente às casas em que se realizavam festas à noite.


A modinha foi um dos gêneros musicais mais democráticos, pois era apreciada por “moças de família”, donas de casa, bêbados e prostitutas. Grandes nomes da literatura cearense escreveram modinhas - Antônio Sales é o mais conhecido deles. Os modinheiros estavam ligados ao universo da noite e da boemia. A influência da vida boêmia, caracterizada pela despreocupação com relação a bens materiais e às convenções sociais, afetou também a forma de compositores de classe média a criar suas modinhas, projetando socialmente as camadas menos favorecidas sem o abuso do romantismo ufanista.


Raimundo Ramos (Ramos Cotoco), Carlos Severo e Carlos Teixeira Mendes (Teixeirinha) fizeram parte dessa corrente, enfatizando os problemas urbanos dos trabalhadores formais e informais, a exaltação do “populacho” e a ojeriza ao “burguês”, mas com um tom de jocosidade e pilhéria, típico do Ceará “moleque”. Teixeirinha cantou os problemas da seca do Ceará com comicidade. Em um de seus versos, diz: “O cearense tem nome e fama de denodado: na seca morre de fome, no inverno morre afogado”.


Ramos Cotoco zombou o apreço que as moças ricas tinham pela moda na sua composição “Modernismo”: “Môça de corpo mal feito/ Não existe, atualmente/ Graças aos quartos suposto/ Que dão forma tão decente/ E elas ‘inda’ são mais lindas porque/ Têm nanquim, Têm zarcão, Têm carmim/ E algodão/ Têm mil prendas/ Fingimentos / Da beleza /Monumentos”. O comportamento insubordinado, a crítica social e o escárnio dos valores e costumes ditados na época eram constâncias na vida de Ramos Cotoco.



Fica evidente que a cena musical de Fortaleza surgiu em meio a muitas disputas, mas os artistas cearenses trataram logo de diminuir o distanciamento social através de suas músicas irreverentes e cheias de malícia, tentando desaparecer com a ideia restrita, pejorativa e discriminatória atribuída aos mais pobres, considerados perigosos, com ausência de educação e sem julgamento morais.

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