O POVO - 21/01/2014
Um gênero boêmio e democrático
A pesquisadora Ana Luiza Rios defende o caráter
democrático da modinha na Fortaleza do século XIX.
O surgimento de uma
cena musical em Fortaleza ocorreu em paralelo ao processo de urbanização da cidade.
A nova ordem que apareceu com a remodelação do espaço urbano, no fim do século
XIX e início do XX, gerou maior distanciamento entre os diferentes extratos
sociais. Enquanto as elites econômicas e intelectuais isolavam-se nas festas
dos clubes e palacetes, os mais pobres faziam seus “batuques de viola” nas
zonas periféricas.
Gêneros musicais
provenientes da Europa (valsa, a polca, o schottisch e a quadrilha) eram os
preferidos pela elite e a classe média de artistas, poetas e demais
trabalhadores letrados. Já os maracatus, as congadas, o bumba-meu-boi e os
fandangos davam o tom às diversões de negros, mestiços e migrantes da seca que
habitavam as zonas sem calçamento e saneamento básico.
As batucadas nos
finais de semana levavam o nome de sambas de areia ou forrobodós, por serem
regadas a danças, bebidas e música. No entanto, essas festas eram, em grande
parte, desmanchadas pelas autoridades policiais, com a justificativa de que
causavam tumulto. O cronista Eduardo Campos aponta que, na falta de diversões, a
população recorria também ao sereno, que era um ajuntamento popular em frente
às casas em que se realizavam festas à noite.
A modinha foi um
dos gêneros musicais mais democráticos, pois era apreciada por “moças de
família”, donas de casa, bêbados e prostitutas. Grandes nomes da literatura
cearense escreveram modinhas - Antônio Sales é o mais conhecido deles. Os
modinheiros estavam ligados ao universo da noite e da boemia. A influência da
vida boêmia, caracterizada pela despreocupação com relação a bens materiais e
às convenções sociais, afetou também a forma de compositores de classe média a
criar suas modinhas, projetando socialmente as camadas menos favorecidas sem o
abuso do romantismo ufanista.
Raimundo Ramos (Ramos
Cotoco), Carlos Severo e Carlos Teixeira Mendes (Teixeirinha) fizeram parte
dessa corrente, enfatizando os problemas urbanos dos trabalhadores formais e
informais, a exaltação do “populacho” e a ojeriza ao “burguês”, mas com um tom
de jocosidade e pilhéria, típico do Ceará “moleque”. Teixeirinha cantou os
problemas da seca do Ceará com comicidade. Em um de seus versos, diz: “O
cearense tem nome e fama de denodado: na seca morre de fome, no inverno morre
afogado”.
Ramos Cotoco zombou
o apreço que as moças ricas tinham pela moda na sua composição “Modernismo”: “Môça
de corpo mal feito/ Não existe, atualmente/ Graças aos quartos suposto/ Que dão
forma tão decente/ E elas ‘inda’ são mais lindas porque/ Têm nanquim, Têm zarcão,
Têm carmim/ E algodão/ Têm mil prendas/ Fingimentos / Da beleza /Monumentos”. O
comportamento insubordinado, a crítica social e o escárnio dos valores e
costumes ditados na época eram constâncias na vida de Ramos Cotoco.
Fica evidente que a
cena musical de Fortaleza surgiu em meio a muitas disputas, mas os artistas
cearenses trataram logo de diminuir o distanciamento social através de suas
músicas irreverentes e cheias de malícia, tentando desaparecer com a ideia
restrita, pejorativa e discriminatória atribuída aos mais pobres, considerados
perigosos, com ausência de educação e sem julgamento morais.

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