segunda-feira, 7 de abril de 2014

Crítica - Noé. 



Assisti Noé no dia da sua estréia nas novas salas de cinema do North Shopping Jóquei de Fortaleza. Essas salas são super confortáveis, pois possuem poltronas reclináveis e a tela é projetada com a melhor tecnologia 3D do mercado. Notei realmente a diferença e acredito que isso tenha até contribuído para eu ter gostado tanto da qualidade técnica do filme. Fui ao cinema meio descrente dessa qualidade, pois um dia antes li uma crítica muito bem escrita de um dos jornalistas da Folha.

Thales de Menezes aponta que Aronofsky poderia ter aproveitado mais dos recursos técnicos, sobretudo do 3D. "A arca era apenas um caixote e os bichos gráficos aparecem em cenas curtas".

Eu já discordo, tendo em vista que o uso das imagens foi muito bem explorado, sobretudo nas visões de Russel Crowe do dilúvio. Gosto como Aronofsky faz o jogo com as imagens, relacionando a catástrofe com a história de Adão e Eva. 

No entanto, não discordo completamente da crítica de Thales, pois também esperava mais do roteiro, tendo em vista que Aronofsky já tinha feito dois excelentes filmes: O Lutador e Cisne Negro. Desde o início sabia que o longa era levemente inspirado na Bíblia, pois Aronofsky preferiu criar os próprios dilemas dos personagens. Porém, o mesmo o fez de maneira simplista e maniqueísta. 

Os Filhos de Caim, por exemplo, foram representados como a origem de todo o mal e por isso Noé precisava decidir o futuro da humanidade quando Deus mandasse o Dilúvio para "lavar" a crueldade da terra. Aronofsky ainda ensaiou um bom dilema com Tubalcaim, quando em um dos diálogos o personagem diz que o homem é fruto da Vontade. No entanto, Tubalcaim foi reduzido a figura de um homem egoísta, louco pelo poder e afeito a carnificina.   

Acreditei que Aronofsky faria com Tubalcaim, algo semelhante que Saramago fez com Caim em sua trama. Nessa obra, Saramago aponta que Deus acabou criando uma rixa entre os dois irmãos quando exaltou a obra de um e menosprezou a de outro. A humanidade teria nascido fruto desse dilema. O próprio Jesus Cristo recebeu uma outra "roupagem", mais humana em sua obra O Evangelho Segundo Jesus Cristo, que acabou dando a Saramago inúmeros prêmios e o desafeto de muitos cristãos.  


Talvez Aronosfsky tenha mesmo acertado na construção do personagem de Noé, que acaba tendo em suas próprias mãos o futuro da humanidade e também do seu filho Ham, que sofreu muito para entender as escolhas do pai. 

Só fiquei meio em dúvida com as escolhas feitas pelo diretor em relação a criação dos personagens dos Anjos Caídos. Ele poderia ter explorado melhor esse grande dilema criado, mas freou no meio do caminho. Aronofsky tinha vários bons exemplos de como fazer isso. Fico pensando se o mesmo leu o Paraíso Perdido. 

Por mais que eu tenha críticas sobre o filme, não gostei das colocações que tenho visto de evangélicos ortodoxos. O diretor em questão em nenhum momento disse que criaria a risca o universo bíblico em seu longa. Ele deu toda uma licença poética a obra, tornando-a, inclusive, mais convidativa. 

Alguns gostam de comparar o filme Noé com O Senhor dos Anéis ou Game of Thrones, mas já acho exagero, tendo em vista que o mundo criado por esses escritores é cheio de metáforas inteligentíssimas, coisa que não aconteceu com maior evidência na obra de Aronofsky. 


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