terça-feira, 8 de abril de 2014

ANÁLISE DA SÉRIE BREAKING BAD - COM SPOILERS

De Walter White a Heisenberg



Breaking Bad é uma série norte-americana criada e produzida por Vince Gillingan. Ela começou a ser exibida nos Estados Unidos em 2008 e teve o seu último capítulo em 2013. Ao todo são cinco incríveis temporadas que tratam sobre o envolvimento da dupla Walter White e Jesse Pinkman na produção e comercialização de metanfetaminas. 

Vince Gillingan foi extremamente genial na criação dos personagens. Eles não nascem acabados, pois na verdade eles vão criando novas nuances na personalidade no decorrer da drama. E o mais interessante é que isso não ocorre apenas com os personagens principais, mas com todos os envolvidos: Skyler (a esposa de White), Marie (a irmã de Skyler), Hank (o marido de Marie e detetive que investiga o tráfico de metanfetamina), Water White Júnior (o filho mais velho de White), Saul (Advogado da dupla) e Gus Fring (o grande traficante de metanfetamina da trama). 

O dilema central da trama gira em torno do câncer de pulmão de Walter White, um professor muito mal pago de Química da rede de ensino básico. Segundo os médicos, White teria adquirido esse câncer pela falta de cuidados no uso de equipamentos específicos quando manejava certas substâncias tóxicas em laboratório. 

Logo no início da trama, White já nos é apresentado como um profissional frustrado e fracassado, que obteve um diploma de doutorado na área de Química, mas por vários motivos éticos dos colegas de profissão, não conseguiu manter-se como sócio-prioritário de uma empresa que foi criada por eles e acabou sendo passado pra trás.  

Nos primeiros capítulos da trama, White mostra-se como um "bom homem de família", atencioso com os problemas da casa, da mulher e dos filhos. Apesar de não gostar do seu trabalho, acaba não reclamando tanto, pois sabe que é a única maneira digna de tirar o sustento de sua prole. Todo esse cenário é drasticamente modificado quando White e sua família descobre o câncer. O plano de saúde não cobre o tratamento e ele acaba não tendo de onde tirar esse dinheiro. Sua esposa Skyler, compadecida com a doença de White, pede ajuda aos ex-sócios do companheiro, mas deixa a situação mais complicada, porque ele agora sente-se não só doente, mas humilhado.

White recusa a oferta do casal e é nesse momento que Jesse Pinkman cruza a sua vida. Jesse é um ex-aluno de White, que usa e trafica drogas. Não menos fracassado, tenta de todas as maneiras ganhar dinheiro fácil, pois percebe que para ter um emprego formal é necessário formação e uma "boa aparência", coisas que ele não tinha. Jesse acaba apresentando a forma de produzir metanfetamina para White e o mesmo percebe que pode fazer um produto melhor com os seus conhecimentos sobre Química. 

De fato os dois tiveram êxito na fabricação da metanfetamina. Quem experimentou percebeu que o produto era de qualidade, mas ambos não perceberam que ainda tinham um grande problema nas mãos, que era o de vender toda essa quantidade da droga. 

No começo o seu público alvo era de dependentes químicos. O trabalho do tráfico para iniciantes não era nada fácil, tendo em vista que repartindo o produto e vendendo em baixa escala era de pouca rentabilidade. Foi ai que White e Jesse tentaram ampliar os seus horizontes, buscando vender a mercadoria para um grande traficante da área.

A ideia não foi nada boa, pois Tuco era um homem violento e marcado por doenças mentais devido ao uso excessivo de drogas. A primeira transformação de White ocorre no capítulo em que ele produz uma fórmula química para acabar com Tuco, que não quis pagar pela mercadoria traficada. 

White logo se dá conta que "não se pode fazer omeletes sem quebrar os ovos" e a partir daí ele vira o Heisenberg. A violência e esperteza tornam-se ingredientes indispensáveis para manter a sobrevivência dele e de Jesse. 

Com o passar do tempo, a droga da dupla vira um sucesso e Heisenberg e Jesse percebem que no sistema capitalista o dinheiro é algo fundamental. Enquanto o primeiro consegue pagar o seu tratamento, o segundo consegue fazer a compra da casa que a mãe em capítulos anteriores tinha tomado por ter descoberto que ele usava drogas.

Em cada capítulo que se passa o universo da produção e da comercialização de metanfetaminas vai ficando cada vez mais abrangente. O ápice disso ocorre quando White conhece Gus, um dos maiores traficantes do produto nos Estados Unidos. Gus é um americano naturalizado que conseguiu ganhar a vida no mundo das drogas por causa de seu profundo equilíbrio e inteligência. Ele possuía várias táticas para não ser descoberto. Trabalhava todos os dias como um cidadão comum, não tinha grandes bens e mantinha contato constante com a Polícia Federal, fazendo grandes doações para a instituição. 

No entanto, desde o início Gus entra em confronto com a dupla por não gostar de Jesse, pois percebia que o jeito explosivo do garoto poderia destruir todo o seu "reinado", cultivado com muito esforço por anos a fio. Gus concordou em fazer negócios com White por perceber que ele era um homem acima de qualquer suspeita, mas a única ressalva era tirar Pinkman da jogada. 

White não era mais aquele homem bobo e despreparado que conhecemos nos capítulos anteriores e por esse motivo nunca caiu nos joguinhos de Gus. O traficante o admirava, mas não percebia que White era uma "força incontrolável da natureza", que o destronaria logo, logo. 

No entanto, não foi fácil para White nem para Jesse destruir Gus, pois ele tinha muitas pessoas que o protegiam. Era necessária a mente brilhante de White para criar o momento perfeito. Enquanto isso, Hank, o agente da Polícia Federal e seu cunhado, estava muito próximo de descobrir a verdadeira identidade de White. 

Nos capítulos seguintes, White arma um plano para matar Gus e consegue êxito a duras penas. Gus é um personagem que acaba deixando saudades, pois era muito marcante e não foi construído de maneira maniqueísta. Gus teve um passado tão nebuloso como o de White e teve que mantê-lo muito escondido. Em um flash do passado de Gus, acabamos por descobrir o seu homossexualismo e a morte do seu companheiro por um grande traficante. Em um mundo das fronteiras com o México, esse tipo de parceria não era tolerada. No entanto, Gus sabia tirar proveito dos momentos difíceis. A sua história o tornaria um homem frio e calculista. 

Gus morre, mas uma cisão entre White e Jesse ocorre. Com o passar do tempo Jesse percebe que White não é mais aquele professor frágil e fracassado. Jesse também não é mais aquele rapaz bobo e ingênuo. No passar da trama ele virou um homem e percebe com as experiências no mundo do tráfico de drogas que não pode confiar plenamente em ninguém. 

White de fato não era mais White, ele agora era o próprio Heisenberg, seu auterego. Todas as experiências no mundo do tráfico mexeram com ele. Ao matar a primeira namorada de Jesse, que era envolvida com drogas pesadas , e envenenar o filho da sua segunda namorada para que Jesse pensasse ter sido Gus, White tinha plena convicção que fez a coisa certa. Para ele, "os fins justificariam os meios". A célebre frase de Maquiavel na obra O Príncipe, é tomada por White ao pé da letra e muitas outras atrocidades são feitas para que ele consiga manter o seu plano e consequentemente a saúde mental de Jesse e o bem estar da sua família.     

O público realmente passa toda a série sem saber se ama ou odeia White e talvez por isso a obra seja de um alto nível de genialidade e complexidade. Os sentimentos para com esse personagem tornam-se cada vez mais contraditórios, pois ao mesmo tempo que sabemos que White está fazendo muitas vezes a escolha errada, não conseguimos desapegar do personagem em questão. 

White enfim é descoberto. Seu cunhado não acredita que a verdade estava na sua cara por tanto tempo. Para Hank e sua esposa tudo é muito revoltante e eles não conseguem lidar com o problema, sobretudo quando percebem que Skyler também está de alguma forma envolvida. O filho de White também acaba descobrindo a verdade e não consegue recuperar-se até o final da trama desse choque. Em sua mente, tudo o que ele pensava sobre o pai era uma mentira. 

White está completamente envolvido com o tráfico e não consegue dizer para Hank que vai sair. Na verdade White orgulhava-se do legado deixado por Heisenberg. Afinal de contas, até onde esse dinheiro era sujo, tendo em vista que foi através dele que conseguiu estabilizar o câncer e dar maior dignidade a sua família?

Todo o envolvimento de Skyler no problema fez com que o casamento se desgastasse. No entanto, alguma ligação existia entre os dois até o final da trama. Essa ligação quase foi rompida quando Hank morreu. Apesar de White imaginar que os fins justificam os meios, ele não achava nada digno que os traficantes acabassem com a vida do seu cunhado. 

Mas de fato isso aconteceu e foi um momento chave na trama. Realmente tudo o que White tinha foi destruído. A sua família o relegou nesse momento por completo. White finalmente descobriu que o dinheiro do tráfico "desmanchava-se rapidamente no ar". Quase tudo o que ele tinha foi roubado e White ficou apenas com um dos "barris" de dinheiro. 

Antes de fugir, White encontra-se uma última vez com a esposa e foi ai que um dos melhores diálogos de todos os tempos foi produzido. White finalmente disse que tinha feito tudo aquilo porque gostava do poder e não necessariamente por causa do amor a família e o medo da doença. Seus fãs ficaram completamente desnorteados, pois tinham comprado desde o início da trama o seu discurso. 

De fato White foi uma das melhores construções de personagens já feita em todos os tempos. As pessoas sentiam-se enganadas por ele, mas estranhamente ainda estavam ligadas sentimentalmente. Confesso que nem nos maiores clássicos da literatura, tinha visto uma reviravolta dessas. 

Em paralelo a essa história, Jesse estava preso por um grupo de traficantes para produzir metanfetaminas, tendo em vista que nesse momento Pinkman era quase tão bom no processo de fabricação como Heisenberg.

Jesse amadureceu ainda mais nessa prisão, repensou a sua vida e viu que só nós podemos dar sentido a ela. White estava completamente acabado, mas talvez em uma luta interna com a sua ética, fez do seu último ato uma nova chance para Jesse acertar e aproveitar o resto da sua vida com mais sabedoria. 

White então vai para o campo de batalha preparado com a sua grande inteligência. Acabou matando todos os seus inimigos com uma outra de suas invenções improvisadas. Jesse salva-se, mas White é atingido por vários tiros. O seu final é emblemático e inesquecível. A Polícia Federal finalmente chega no lugar e encontra o grande Heisenber morto ao som do clássico "Baby Blue", fazendo alusão ao seu grande legado de metanfetaminas. 

De fato a série pode ser vista como umas das mais bem produzidas de todo o século. Ela é um verdadeiro compêndio acerca da moral na pós-modernidade. A genialidade do seu criador pode ser comparada a de Dostoiévski, que escreveu Crime e Castigo e a de Francis Ford Coppola, que deu vida a Don Vito Corleone em O Poderoso Chefão.    


   







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